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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Imediatismo, o grande mal da Fórmula 1*

* Por Bruno Vicaria


O imediatismo é um dos grandes fascínios do mundo moderno. E, de longe, um dos maiores males. O acesso rápido à informação, por exemplo, bate de frente com a necessidade exagerada de se publicar a mesma informação o mais rápido possível, mesmo às vezes ela nem sendo verdade.

No esporte, o imediatismo também existe, tem seus dois lados da moeda. Aliás, vários lados, principalmente no automobilismo, especialmente na Fórmula 1. É esse imediatismo que faz com que os jovens virem profissionais cada vez mais cedo. E aposentados, também, tamanha a pressão, implacável no mundo extremamente comercial e quase falido da F-1. Chegar lá já é uma missão heróica nos dias de hoje;  permanecer é tarefa para poucos e ricos.

É desta pressão que estamos falando. O querer tudo agora. Sem tolerância, sem segunda chance, sem tempo nem paciência. Falo, obviamente, de Felipe Massa. Ao invés de tentar descobrir, entender e apoiar, mesmo que seja complicado, o torcedor brasileiro, italiano e ferrarista, além de parte da mídia, querem sua cabeça a qualquer custo.

Felipe Massa é como uma pessoa em depressão, que, ao invés de receber apoio, só consegue ser puxada cada vez mais para baixo. Ainda mais quando vê seu companheiro de equipe ser capaz de fazer grandes exibições e ele, não. Sem entender e encontrar o motivo pelo qual isso está acontecendo. Que se esforça e tenta resolver seu problema, mas que não conta com a compreensão das pessoas dentro de sua própria casa (ou País), que querem resultados a todo instante e não aceitam um resultado que não seja a vitória.

É notório que Felipe Massa está tentando melhorar. E que está tentando não errar. E que está pesada a pressão. E que não há a mínima compreensão por parte de muita gente. O mais fácil é chamá-lo de perdedor, de ruim, de prego, de braço, de pescoço. Como se ele errasse de propósito, como se o talento dele tivesse desaparecido, ou nunca existido, ou que sua temporada de 2008 foi uma obra da sorte, apenas. E como se ele não tivesse o direito de errar ou de tentar se reconstruir. Como se, em um passe de mágica, ele resolvesse todos os problemas dele.

Uma pessoa em depressão não se cura de uma hora para a outra. É preciso tempo e cuidado. E ter tempo, na concepção da F-1 capitalista e do próprio brasileiro (cuja cultura se baseia em apoiar apenas quem vence, não quem tenta _o atleta é descartável), não é permitido ter. Pode ser que ele se recupere, ou pode ser que ele nunca mais volte a ser como era. Mas que ele tenta e pouca gente enxerga, isso é notório. Mas de maldade o inferno tá cheio e mais fácil é colocá-lo no paredão.

Se a pressão nos jovens por resultados imediatos é forte, a nos pilotos com mais experiência é pior ainda, como podemos ver com Massa. Quantas vezes ele já foi aposentado ou substituído na Ferrari. Quantas vezes aconteceu isso com Mark Webber e Rubens Barrichello, por exemplo; dois que mereciam um prêmio por durarem tanto tempo e suportarem coisas que muitos dos que apontam o dedo, humilham e ironizam não aguentariam nem uma semana. Michael Schumacher só sobrevive no cenário atual pelo currículo que tem; pelos resultados, já estaria fora. Se fosse Jacques Laffite, provavelmente, sucumbiria. Riccardo Patrese, então, não chegaria nem a 50 GPs. E, se você tem mais de 25 anos, muitos vão dizer que você está velho, que não presta e não vai durar.

Fico aqui pensando com meus botões. Um piloto arrojado, veloz, mas extremamente trapalhado e, que, na gana de ser o melhor, bate, como Nigel Mansell, teria sobrevivido na F-1 atual? Quantos Mansells já não ficaram pelo caminho? Afinal, nem todo mundo é Pastor Maldonado, que, convenhamos, só está onde está por conta do dinheiro que leva; caso contrário, já estaria fora pelo excesso de arrojo há muito tempo. Todo mundo sabe disso.

Quantas jóias raras já se foram desta forma antes mesmo de serem lapidadas. Que, às vezes, não têm uma temporada inteira sequer para poder aprender e colocar em prática o que aprenderam. E que, por conta disso, podem entrar em um buraco psicológico do qual sairão depois de muita luta e horas de análise. Afinal, muitos desses jovens pilotos perderam praticamente toda a infância investindo neste sonho e, desde pequenos, sofrendo pressões que não precisavam por conta deste imediatismo. De pilotos brasileiros, posso puxar uma lista que não tem fim.

Talvez seja a hora de pensarmos um pouco mais e pararmos de tratar alguns pilotos como o Capitão Nascimento trata o 02. Afinal, na hora de formar esse talento, ninguém deu um centavo, um apoio, um incentivo. Piloto também é ser humano, precisa de tempo. Não nascem sabendo e não são de ferro. Aliás, são heróis. Arriscam a vida e se doam para podar dar alegria a seu povo (se é certo ou não, é uma coisa involuntária, que está impregnada em todos por conta das atitudes de Ayrton Senna décadas atrás), que, em muitas vezes, é mal-agradecido. Ninguém melhor que o próprio Massa para falar disso. Proponho um exercício para vocês: se coloquem no lugar dele.

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